Tinha resolvido seguir as estrelas. Há muito evitava desvios fortuitos para seguir
o seu norte. Rumo ao que ia?, não se sabia. O que importa é que, independente
dos dias, sua sombra sumia em direção aos pés da imensa montanha fria, de
verde intenso e mistérios noturnos.
Sua
vida era andar pelo mundo. Por aqui... acolá. Trombando,
empurrando pedras e flores, desgostos e amores. Era o seu modo de
enfrentar dores. Parava aqui, tomava um. Logo ali, mais uma
boca, mais um olhar. Era mais um corpo todo. E mais um
pedaço-estilhaço que fica na calçada — mas era bem paga.
Em
outros tempos, a voz de Holanda, ainda menina, fazia logo de
manhãzinha ecoar pelo quarto um bom-dia. Cheiro de café e pães
quentes, de um salto da cama já se ia para o banheiro, cuidar dos
longos cabelos negros da noite e do rosto meigo repletos de
lampejos. E assim as manhãs se abriam em sonhos despejados sobre
as carteiras de madeira velhas da escolinha do lugarejo, a única.
Aquilo era o mundo para aquele corpo petit, mais osso que carne,
mais sonhos que pedra, um ser humano como outro qualquer.
Assim
sempre foi. Irmã de José — filhos sabe-se lá de quem — o mais
velho e responsável pelos afazeres domésticos e pelo sustento.
Tinha o Zé como uma figura mítica que reunia no corpo de homem
feito a atenção de uma mãe e o modo austero de um pai.
Era
assim; chegava, beijava Holanda, pães no armário, cheiro da carne
no fogo, o sorriso companheiro e a noite se abria em risos.
Era
madrugada, o frio cortava a pele, as horas adiantadas, e Holanda
num sobressalto, pés no chão, passo apressado, um vulto pela
janela, e a certeza tão indesejada das gentes. A morte. A
manhã encerrou aquela noite com um sol desses de queimar a pele e
arder os olhos.
Para Holanda, daquele dia, apenas o que era desatino e falta ficou.
Com
os anos que aos poucos vinham, ela redescobriu coisas como um
amanhecer de sol ameno, sem praia, com comidas simples, sem
cheiros verdes, sem o Zé e com lembranças dos sonhos de
sorrisos-brilhos como os dos tempos do orfanato.
Passou
a achar bem sair nas noites e andar sem rumo. Era o desejo de
debelar os dias que a levava perambular por vielas estreitas. Aos
poucos, entregou-se às incertezas das esquinas. Era apenas uma
forma de levar ou velar a vida. Com chicotadas domou os dias.
Tudo se tornou tão normal. Viver era simples.
Naquela
manhã, acordou, pegou o cigarro, colocou-o na boca, andou a
passos lentos rumo à janela, olhou o céu tingido de azul — apesar
de tudo — e tragou profundamente. Só então, percebeu que o
fumo estava apagado, não tinha fogo, ainda não fumava. Num gesto
sereno e largo, se encostou na cama e começou a ouvir músicas, sons,
veredictos, ofensas, juras de amor, urros de prazer forçado,
sorrisos, gargalhadas de escárnio e o som mudo da noite anterior. Os
olhos choveram.
Naquele
dia, Holanda, mais uma vez, não dormiu. E nem fez falta.
Restavam apenas carne e sonhos.