domingo, 17 de junho de 2012

Ester


Mas foi me dando um desespero, que você não faz idéia – Caminhou até a janela, destrancou a tranca, abriu uma banda, depois a outra. A brisa acarinhou a face, a barba ruiva esbranquiçada mexeu-se. Levantou as mãos e esfregou as duas contra o rosto castigado pelo tempo.
Eu estava ali, paradinho naquele cruzamento da São Paulo com Caetés, sabe onde é?  - Questionou ao amigo que naquele momento estava limpando a navalha. Este apenas mexeu a cabeça em sinal de afirmativo. 

A vida já não está fácil, meu amigo. E para complicar mais, ela me vê ali. Por pouco não me pega de calças arreadas. Já imaginou se ela me visse descendo o escadão? Aí a vaca ia pro brejo – Olhou no espelho e notou que o ruivo dava lugar para o branco. Já completava qua-ren-ta-e-cin-co primaveras, apesar de ter nascido no inverno, e a juventude não o habitava como antes. O sexo era pouco, tanto em casa quanto no baixo meretriz, e a potência do falo não chegava aos se-ten-ta-por-cen-to do que era antes. Tempos de juventude, mulheres e mulheres desfilaram em sua cama. E agora, com a idade chegando, lhe restava o desprazer de subir aos puteiros da São Paulo e pagar pelos pouco que ainda lhe restara.

O outro, limpa a cadeira com a toalha branca, murmura alguma coisa que dá a entender que estava liberado o assento. Este caminha até a cadeira, coloca o celular e a carteira sob o balcão e assenta. O encosto é reclinado, a face ganha de presente à toalha quente e úmida. Logo depois a espuma do Bozzano Mental é passada sob o tapete ruivo espalhado em sua face. Ele se ajeita novamente na cadeira, dá um sorriso para o outro, que mesmo neste momento tão intimo não entende nada.  Suspira novamente, relembra à tarde de quinta-feira passada as qua-tor-ze-ho-ras-e-quin-ze-mi-nu-tos. O pene mexe dentro da cueca branca. Ele suspira e diz em voz alta: Ester, como você trepa bem!

A lâmina desce rente ao pescoço, deixando a pele branca à mostra.

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