quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dias assim... dias assado.

Foi uma manhã atípica. Acordou atrasado, tomou banho frio por conta de um chuveiro queimado, deixou o leite esparramar, perdeu o ônibus, foi chamado a atenção no trabalho, esqueceu de mandar 'aquele' e-mail para a diretoria. Na hora do almoço, o prato que pediu veio errado; comeu o que não queria. Mesmo assim, fez força e tentou não se estressar. Voltou do almoço acreditando que a 'nuvem negra' passara. Ledo engano. Até o computador conspirava contra. No meio daquela minuta, inesperadamente apagou-se. Foi a revolta da máquina contra o operador. Mas ele era persistente, (respirou fundo) foi ao banheiro refrescar a cuca. Viu no espelho o reflexo de um alguém que a muito não se lembrava. A barba por fazer, olheiras escândalosas, um cabelo desgrenhado. Um rosto amarelo. Pensamentos vão, pensamentos vêm e o medo de desfalecer veio a tona.

" - Será que minha hora esta chegando, e isso tudo é um sinal?"
" - Porquê eu?"
" - Porquê comigo?"

Ouviu o barulho da descarga no reservado ao lado, ao sair, o gordo careca do financeiro fitava-o com certa desconfiança. Devia estar pensando:

"- Que raios esse cara tá fazendo aqui??"

Pouco se importou com o careca, ele já não tinha mais importância. Pra ele, não passava de um fracassado. Trabalhava há mais de 5 anos na empresa, e nunca havia subido de cargo. Era um coitado...

Como a máquina havia se revoltado, foi trabalhar no arquivo. Papéis, traças, caixas, etiquetas. A sinusite apertou, uma dor insuportável na têmpora. Espirros, coriza.
Já não queria mais trabalhar naquele dia, fugiu.
Foi fazer algo inusitado. Imaginou que aquele era o último dia de seus míseros 35 anos. Foi ao parque, comprou algodão doce, maçã do amor, rolou na grama. Sentiu o corpo todo pinicando em virtude das gramíneas, as mesmas que deixavam-no irritado quando o pai jogava-o no chão e rolavam abraçado. Chorou. Bateu uma saudade enorme do pai, aquele que o ensinara preceitos básicos de moral, educação. Um mentor. Seu mentor. O pai morrera anos atrás, e ele nem ao menos chorara durante o enterro. Seus olhos secaram inusitadamente. Foi algo surreal. Queria chorar. Agora, coçando-se, chorava. Copiosamente.
Olhou para o relógio, e lembrou da namorada que devia estar preocupada em casa. Tinha o nobre hábito de ligar para ela, sempre que retornava do trabalho. Ficavam a falar amenidades, pequenos casos do dia a dia... Mas hoje, curiosamente, perdera a vontade de falar com ela. Queria rezar, afinal, imaginava que em poucas horas estivesse em contato com o'Barbudo'. Entrou na primeira capela que encontrou. Caiu de joelhos. Uma sensação indescritível. Pediu a remissão de todos seus pecados, rogou aos santos uma solução.
Talvez tenha pedido com tanto afinco que acolheram-no. Foi o último dia de trabalho, último dia no parque, último choro verdadeiro.
Primeiro dia do resto de sua vida.

Fique em paz...

Nenhum comentário:

Postar um comentário