Não estava em seu estado normal. Estava transtornada. Não aguentava mais o apartamento, não aguentava mais a vista da janela, não aguentava o brilho etéreo de suas lâmpadas e abajures. E principalmente, não aguentava mais olhar no espelho e ver aquele rosto pálido e frágil lhe encarando de volta. Não aguentava mais aquele vazio.
Todos tinham partido. Helena ficara sozinha consigo mesma. E seus pensamentos eram negativos demais, obscuros demais, exaustivos até. E não conseguia parar de pensar, mesmo esvaziando a mente, a paz durava alguns segundos e logo todo o negrume invadia sua mente e a tomava por inteiro, tornando sua angústia ainda pior.
Não sabia mais o que fazer. Precisava retomar as rédeas de sua própria vida. Era hora de mudar radicalmente. Esquecer a Helena inocente, a Helena sofredora, a Helena dominadora, a Helena submissa, a Helena cheia de segredos. Decidiu recomeçar, se purificar. Começaria pelo armário.
Jogou todas as roupas pretas em cima da cama de casa, com roupa de cama também negra, e começou a escolher e separar em duas pilhas. A maior, roupas que seriam doadas, vendidas ou até jogadas fora, não poderiam mais ficar, estavam carregadas de lembranças, pensamentos, coisas que não faziam mais bem. Já a menor, com umas poucas peças recatadas, com desenhos alegres, ficariam, mas bem no fundo do armário, Helena evitaria o preto daqui pra frente.
Tirou a própria roupa do corpo, enrolou-se numa toalha cor de rosa, simples, mas alegre. Sentou-se à janela e notou que sobraram poucas peças de roupa no armário, praticamente tudo que tinha era preto, até a decoração de seu quarto era preta. Helena precisava de um novo ambiente, precisava de luz.
Enfiou-se no chuveiro, lavou-se até sentir que todos os pensamentos tristes deixaram seu corpo. Vestiu a única peça de roupa alegre que tinha no armário, um vestido vermelho, curto e solto ao redor do corpo, estampado com borboletas brancas. Calçou o único par de sandálias que possuía, uma de salto baixo, também vermelha com branco, ganhara-as junto com o vestido, na última tentativa de sua mãe de fazê-la “mudar de estilo”, como ela dizia.
Saiu para a rua, foi passear e admirar pela primeira vez em seis anos os arredores do lugar que morava. Parecia que era a primeira vez que abria os olhos, os ouvidos, todos os seus sentidos pareciam estar despertando nesse momento. Ouvia os pássaros, o vento, as crianças correndo e brincando e seus pais a lhes cuidar. Via o céu, o sol, as árvores, as pessoas. Sentia o cheiro de grama recém cortada. Sentia o gosto da pipoca doce que comprara. Sentia a textura do banco de madeira onde estava sentada admirando o mundo.
Helena finalmente se sentia completa. A luz, o calor e as risadas a preenchiam, deixavam-na embriagada, faziam-na sorrir. Ela sentira falta desse sorriso espontâneo, natural, inesperado, um sorriso que há muito não aparecia no rosto de Helena. Nem mesmo o suposto amor que sentira tinha feito ela se sentir tão bem.
Agora Helena abandonava essa metade sombria que lhe assolava a alma.
Enfim assumia ser quem realmente era.
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